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Notas (1ª versão do texto)

Notas para um projecto fotográfico (1ª versão do texto)

Uma fotografia é um depósito de tempo e de espaço. Eu sou um homem fotossensível, um homem película. Toda fotografia é um vestígio. Eu sou um homem que já passou à história, a mesma história que me desvia da minha função essencial.
Eu sou um homem negativo, um homem invertido. Um homem com propriedades químicas e afectivas. A que imagem concreta corresponde um homem “abjecto”? Um “abjecto” fotografado? Toda fotografia evoca um grau de presença, é um contínuo retorno ao local do crime. O crime, propriamente dito, é a revelação do dispositivo. O processo fotográfico quase que me permite aceder a uma zona interdita. Quase, pois é neste “não chegar lá” que habito a maior parte do tempo.
Se calhar a grande diferença entre a fotografia e o espelho é que os espelhos têm o seu próprio mecanismo de auto-limpeza: retornam sempre ao grau zero de presença. Fazem motins regularmente e criam os seus grandes e confortáveis vazios.
A imagem é um produto maleável e em constante actualização. É um produto que circula a grande velocidade e é consumido até à exaustão.
Toda imagem é uma fonte constante de fixações e reproduções. Entre mim e a minha imagem existe a técnica que faz de mim uma espécie de administrador de impressões. Um administrador objecto. Um gestor de paisagens.
Eu sou um homem visual numa cidade fotogénica. Cada edifício demarca o seu território e a sua personalidade. Cada esquina dilui-se no seu ângulo. Eu sou um homem e um ponto de fuga.
Abre-se um espaço para o acontecimento. Só a montagem cenográfica sobrevive à erosão da palavra. Eu sou um homem e um portfólio.
Para compreender uma imagem é preciso viajar até o seu centro, é preciso ser projectado no espaço, ser observador e observado. Eu sou um homem super-exposto. Um agenciador de retratos.
Deito-me de frente a uma janela semi-cerrada, com uma cortina a fazer de pestana. O edifício está doente, todas as paredes tremem ao menor movimento. Um edifício com ataques de pânico.
Ainda não é claro se estou do lado de dentro ou de fora. É como se me espalhasse ao longo de uma mesma superfície interminável. Não sei distinguir se o que me circunda o corpo é pele, papel ou pano. De um lado vejo-me a mim próprio projectado no outro. Mas qual é o corpo que reage quando penso em mudar de posição?
E assim que me transformo em superfície e deixo-me imprimir pela experiência, transformo-me eu próprio em registo, em multiplicação de um padrão aleatório que me permite ser lido a distância. O meu corpo, objecto de culto, transformado em fetiche pelo olhar do outro, e perante o meu próprio olhar de deleite e cumplicidade.

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