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INVENTÁRIO

INVENTÁRIO

2006/7

Gosto de pensar na coreografia como uma colecção de eventos, no performer como um comissário que os selecciona, ordena e apresenta. Interessam-me os processos de apropriação, de reescrita, de exposição, de tradução, de interpretação, de produção de relações ou até mesmo de pura pirataria.

Vejo um espectáculo como um momento de crise, como um intervalo entre percursos demasiado delineados. A expectativa inicial do encontro e do acontecimento possibilita a criação de um espaço privilegiado de relação, de reformulação e de transformação.

Interessa-me explorar um corpo gestor de qualidades diversas, reversível e desequilibrado. Um corpo que comporta uma possibilidade de reconstrução da sua relação com o mundo e com o olhar do observador. Um corpo território acidentado ao qual é necessário construir acessos.

Ao desenvolver um trabalho coreográfico interessa-me sobretudo focar propostas de relação entre a partitura, o intérprete e o observador. Interessa-me explorar a tentativa de materialização do processo coreográfico, a sua constituição.

Ao equacionar as dinâmicas e as lógicas das trocas entre energias, matérias e conceitos, interessa-me tentar perceber o que fica, se é que há algo que fica. Interessa-me procurar uma articulação possível entre vocabulário, gramática e sintaxe criativos que não se esgote na ideia de estilo, que possa desenvolver uma poética que se aproprie de formas pré-existentes, mas que também crie desvios na sua utilização.

O projecto Inventário explora processos de selecção e recolha de fragmentos, de pequenas formulações a propósito de uma existência cénica, transformando em “temática” aquilo que normalmente é acessório: os processos de organização, de categorização, de produção da diferença. Inventário de percursos individuais numa partitura de grupo, inventário de experiências temporais, inventário da sedução, do assédio da forma, da plasticidade. Inventário de traços, de vestígios e de impressões. Da mesma forma que toda dança em certa medida fala de dança, cada processo fala também de si próprio, dos seus intervenientes e das suas possibilidades, interrogando a sua própria coerência e evolução.

A partir de um vocabulário básico (entradas, saídas, exploração do espaço cénico, saltos e quedas) expõe-se em cena um corpo paradoxal, submerso na sua própria complexidade. Um corpo ora individual, ora partilhado, que se abre à mutação e à adaptação constante aos outros.

Joclécio Azevedo

Pré-Estreia 28 Dez. 2006 : Teatro Reina Sofia : Benavente - Espanha

Estreia 9 e 10 Fev. 2007 : Culturgest (Grande Auditório) : Lisboa

17 Mai. 2007 : Festival da Fábrica : Teatro Helena Sá Costa : Porto

Direcção artística e coreografia Joclécio Azevedo
Música Kubik
Figurino Osvaldo Martins
Interpretação Anaïs Bouts, Joana Bergano, Joclécio Azevedo, Tiago Barbosa, Vera Mota
Colaboração Helder Dias
Direcção técnica e desenho de luz Mário Bessa
Fotografia Susana Neves
Documentário, registo em vídeo Eva Ângelo
Produção executiva Núcleo de Experimentação Coreográfica
Co-produção Culturgest/O espaço do tempo
Apoios Fundação Serralves, Balleteatro, Ginasiano Escola de Dança, Culturporto/Rivoli Teatro Municipal Projecto financiado pelo Ministério da Cultura/Instituto das Artes

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