Ao desenvolver um trabalho coreográfico interessa-me sobretudo focar propostas de relação entre a partitura, o intérprete e o observador. Interessa-me explorar a tentativa de materialização do processo coreográfico, a sua constituição.
Ao equacionar as dinâmicas e as lógicas das trocas entre energias, matérias e conceitos, interessa-me tentar perceber o que fica, se é que há algo que fica. Interessa-me procurar uma articulação possível entre vocabulário, gramática e sintaxe criativos que não se esgote na ideia de estilo, que possa desenvolver uma poética que se aproprie de formas pré-existentes, mas que também crie desvios na sua utilização.
O projecto Inventário explora processos de selecção e recolha de fragmentos, de pequenas formulações a propósito de uma existência cénica, transformando em “temática” aquilo que normalmente é acessório: os processos de organização, de categorização, de produção da diferença. Inventário de percursos individuais numa partitura de grupo, inventário de experiências temporais, inventário da sedução, do assédio da forma, da plasticidade. Inventário de traços, de vestígios e de impressões. Da mesma forma que toda dança em certa medida fala de dança, cada processo fala também de si próprio, dos seus intervenientes e das suas possibilidades, interrogando a sua própria coerência e evolução.
A partir de um vocabulário básico (entradas, saídas, exploração do espaço cénico, saltos e quedas) expõe-se em cena um corpo paradoxal, submerso na sua própria complexidade. Um corpo ora individual, ora partilhado, que se abre à mutação e à adaptação constante aos outros.
Joclécio Azevedo
Pré-Estreia 28 Dez. 2006 : Teatro Reina Sofia : Benavente - Espanha
Estreia 9 e 10 Fev. 2007 : Culturgest (Grande Auditório) : Lisboa
17 Mai. 2007 : Festival da Fábrica : Teatro Helena Sá Costa : Porto
