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Ecossistemas...

Ecossistemas: Contextualizar o processo e a produção (Extracto)
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Corpo, linguagem e processo

Ao longo dos últimos anos, o meu trabalho tem consistido em intervenções caracterizadas pela criação de dispositivos cénicos onde o corpo pode ser introduzido para ser visto, analisado e consumido sob vários aspectos, através de vários tipos de operações. A elaboração de cada processo é em si também uma aprendizagem contínua.
Percorrer zonas fronteiriças entre diversos géneros da performance, disciplinas e linguagens artísticas ou utilizar constantemente referências a estruturas de exposição pré-fabricadas, interrogando o seu conteúdo, são estratégias para encontrar configurações que possam sugerir ao observador uma postura mais crítica e menos condescendente em relação ao que lhe é dado a ver.
No processo de construção de uma nova peça coreográfica normalmente começo por perguntar o que é uma coreografia? Como se produz? E qual é a ideia de corpo que a suporta ou legitima? As condições de produção e o contexto de uma nova criação estabelecem à partida muitos elementos em relação ao que o trabalho poderá vir a ser. Este facto exige uma resposta em termos criativos e abre a possibilidade da utilização do contexto de criação como tema ou matéria da criação. Qualquer que seja o dispositivo resultante será um suporte para a exposição do corpo, levantando também questões relativas à sua materialidade, aparência, comportamento ou modos de interacção.

Particularmente, interessa-me pensar na ideia do artista como coleccionador de eventos, como uma espécie de comissário que os selecciona, ordena e apresenta. Elabora-se um contrato com o observador, cujas cláusulas são distribuídas no tempo e espaço do acontecimento.

A arqueologia do processo criativo

Na criação contemporânea, os modos e as matérias da produção têm sido um alvo preferencial de reestruturação. As variações sobre o anacrónico, o assíncrono, o substituível, o belo, o irregular, o serial, o horrendo, o kitch ou o instantâneo, por exemplo, são apenas alguns tópicos que integram um extenso catálogo de possibilidades longe de estar esgotado. A simples adaptação de novos mecanismos para velhas ideias ou de novas ideias para velhos mecanismos mostra, muitas vezes, não ser suficientemente eficaz se não for acompanhada por um questionamento consequente sobre o percurso das ideias e sobre os modos de instalação de toda a cadeia de relações subjacentes em qualquer obra.

Procura-se, talvez, um corpo livre de constrangimentos na construção da sua gramática criativa. Procura-se a simples impossibilidade dentro de outras impossibilidades mais complexas. Procuram-se os corpos extremos e todos os outros corpos intermédios. Procuram-se estratégias de intervenção sobre o processo que permitam instaurar uma tensão entre aquilo que constitui a prática corrente e outras práticas alternativas que induzam a um movimento de expansão dos sentidos possíveis despertados por uma obra. Um estar entre parêntesis: Num estado de permanente provisoriedade, habitar o processo equivale a viver no percurso, equivale a fazer do nomadismo um esquema operatório. Noções como a navegação entre as formas, a apropriação, a deriva ou o acidente de percurso substituem parâmetros mais estáveis de composição.

Escavações

Uma oscilação entre a opacidade e a transparência da imagem do outro: O corpo do outro, o outro que observa, o duplo de cada corpo que também é um outro. No interior do processo promove-se uma pluralidade de visões sobre a criação artística e sobre as modalidades da sua materialização. Cada corpo, denunciado pela organização das formas ou pela possibilidade da sua própria reconstrução arquitectónica, interroga cada novo olhar que se insinua, desdobra-se em versões da sua especificidade. Num contexto artístico mais alargado, o processo de criação não visa somente a produção de um objecto, mas é sobretudo um processo de produção de processos. Ao propor alterar a forma como as coisas são feitas avança-se em direcção ao imprevisível, inicia-se um reposicionamento em relação ao acto criativo e às suas funções.
Processo arqueológico: Identificar zonas de interesse, cavar, encontrar, limpar, classificar, mostrar… Ir em direcção à origem das coisas e não somente à sua finalidade. Princípio da compartimentação: examinar ao pormenor os elementos constituintes, reagrupá-los em novas categorias. Qual é a pulsação de um processo criativo? Como realizar uma gestão eficaz da matéria produzida? Como fornecer um índice que permita o acesso às suas questões essenciais e às suas motivações? Como criar intersecções entre a criação artística e as outras áreas da actividade humana? Como desenvolver a precisão dos instrumentos de trabalho? Derivações, topografias, registos: Colocar palavras, umas ao lado das outras, promover a investigação sobre vocabulários, intertextualidade, fazer o levantamento dos indícios, vestígios e circunstâncias subjacentes aos acontecimentos, desafiar a expectativa, coleccionar factos… Como encontrar a tonalidade específica de cada partitura por escrever?

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Joclécio Azevedo

(Texto publicado no livro: ENSAIO ABERTO - Núcleo de Experimentação Coreográfica: Abordagens à produção artística, edição: objecto cardíaco,2005)

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